como levar um tipógrafo ao desespero *

Os tipógrafos tremiam cada vez que escutavam os passos de Honoré de Balzac no piso das gráficas. De longe, a figura roliça já anunciava trabalho árduo. De perto, a boca mal cuidada causava calafrios ao falar das novas correções, notas explicativas e inclusões de novos personagens à última prova tipográfica do seu mais recente romance, que trazia embaixo do braço. Essa colcha de retalhos integraria depois a megalomaníaca Comédia Humana, conjunto de romances e novelas (74 obras segundo a biografia de Johannes Willms e mais de uma centena de acordo com a de François Taillandier) que literalmente fizeram o prelo chorar.

Esses 74 textos foram reescritos cinco vezes cada um, pelo menos, afirma Willms. O escritor acreditava produzir a maior pintura de costumes já feita na História. Engels, colaborador de Marx, disse anos depois ter aprendido mais sobre sociologia em Balzac do que em suas próprias pesquisas.

Balzac escrevia rápido demais, tinha ideias demais e dívidas demais. Essa mistura de produtividade vertiginosa, talento excessivo e penúria financeira resultou em garranchos indecifráveis, conflito com editores e credores e uma morte aos 51 anos de idade. Foi o primeiro a enxergar a literatura e o jornalismo como nada mais que "um meio para o desprezível objetivo de enriquecer", diz Willms, o que o fez tomar cuidados minuciosos com o que seria apresentado ao leitor-consumidor, levando os compositores de texto à loucura:

- Completei minha hora de Balzac!, ouviu o escritor certa vez na época de produção de O lírio do vale.

Quem rivalizou com Balzac em capacidade para testar paciências foi Marcel Proust. Seu Em busca do tempo perdido, romance-memória de 3 mil páginas, nem sempre foi considerado digno de ser lido. Ninguém entendia porque ele gastava 30 páginas para descrever como alguém "tosse e se revira na cama antes de dormir", relatou um amigo; outro disse que, ao final das 712 páginas do manuscrito inicial do livro, "o leitor não tem uma ideia, uma única ideia sequer sobre o que é o livro."

Segundo Alain de Botton, autor de Como Proust pode mudar sua vida, o escritor planejava de início um livro com 500 mil palavras, que se tornaram 1,25 milhão na versão final. Botton calculou: a mais longa das frases tem quatro metros de extensão. Teve que bancar do próprio bolso a edição do primeiro volume da obra (são sete, ao todo), tamanha a dificuldade que encontrou para agradar leitores e editores.

Proust só escrevia nas páginas ímpares dos cadernos, deixando para as pares inúmeras mudanças, trechos novos e espaço para colar folhas extras com correções das correções. As provas tipográficas retornavam mutiladas à editora: metade do primeiro volume foi reescrita quatro vezes durante o vai-e-vém da gráfica. Para Botton, são três os autores do livro. O Proust que escreveu o manuscrito, deitado em sua cama enquanto sofria de doenças reais e imaginárias, o que o releu e o que corrigiu as provas.

Havia também o Proust que sonhava ver seu livro publicado em um só volume. Sem parágrafos.

Esse texto saiu primeiro em uma edição (não me lembro qual) do jornal laboratório da PUC, "Saiba +"

hálito do mal

Anticristo (2009) é um filme feminino (e não feminista) feito para homens de estômago forte. O Daniel Serrano, do postoqueposto, recorreu a crítica de Jorge Coli que contesta a fama de misógino do diretor dinamarquês. Tomo emprestado um artigo de Luiz Felipe Pondé publicado na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 21 de setembro desse ano (página E10) com o título "O Terror no Éden".

Nele, Pondé observa que "a acusação de sexista é típica da superficialidade que assola a atual crítica, antes de tudo por falta de repertório, no caso específico, repertório teológico". Ele lembra também que Von Trier dedicou o filme a Tarkovsky, diretor russo de forte inclinação espiritual e metafísica, que amava sobretudo os filmes de Bresson, Bergman e Buñuel, todos permeados por dúvidas sobre a existência (ou a maldade) de um deus, a relevância da doutrina religiosa e a busca de um sentido da vida.

De Andrei Rublev (1966) a O sacrifício (1984) Tarkovsky percorreu o imaginário cristão. Estrelado por Erland Josephson, protagonista de vários filmes de Bergman, O sacrifício, seu último filme, abre ao som do Evangelho de São Mateus, de Bach. O filme de Von Trier abre com um tema de Rinaldo, de Haendel. A análise comparativa pode não ser a melhor forma de fazer crítica cinematográfica, mas se aplica em casos como esse; Von Trier tenta se enveredar por uma forma de arte que Tarkovsky admirava -- em suas palavras, fazer cinema é "esculpir o tempo" -- e que o dinamarquês, por sua vez, tenta tomar para si para combater sua própria depressão.

Humberto Pereira da Silva em trecho de seu livro Ir ao cinema: um olhar sobre filmes, ao comparar o tratamento que Bergman e Tarkovsky dão ao tema da escolha, conclui que

O sentido da vida, então, não está propriamente nas coisas vividas, mas nas escolhas. Que haja Deus ou não perscrutando nossa mente, somos aquilo que escolhemos. Uma vez que não temos acesso à mente de Deus, simplesmente escolhemos.
E se a oportunidade de escolha de fato não existe? Pondé: "A personagem feminina carrega em si toda a tragédia que é ter sido aquela que pressentiu o hálito do mal no mundo e em si mesma. Façamos silêncio em respeito a ela". Talvez aí Von Trier tenha esbarrado, sem querer, na Laranja Mecânica de Kubrick ao tentar se aproximar formalmente de Tarkovsky. Como se livrar do mal que existe em nós, quando ele se manifesta involuntariamente e atrapalha nossa existência na sociedade? Ou pior: por que deveríamos tentar extirpá-lo?

Willem Dafoe submete sua esposa a um tratamento parecido com o que Alex DeLarge recebe na clínica: um condicionamento pavloviano para superar o medo e conter impulsos. No filme e no livro, o paciente vira um cordeirinho, mais um no rebanho, mesmo que, mentalmente, não consiga evitar pensamentos aberrantes. No Anticristo de Von Trier, o tratamento só pode terminar quando se extingue o paciente.

música de cristal

Quem já assistiu qualquer filme da época de ouro da filmografia de Werner Herzog -- Aguirre (1972), Coração de cristal (1976), Nosferatu (1979), Fitzcarraldo (1982) ou Cobra Verde (1987) -- foi obrigado a ouvir trilhas sonoras que se fundem perfeitamente com a megalomania visual do diretor alemão. Quem pensaria em fazer um remake do filme de vampiro mais simbólico da história do cinema e compor uma trilha que mistura mantras hindus e canto gregoriano? O Popol Vuh, cujo líder Florian Fricke, precursor do uso do sintetizador Moog (e, portanto, da música eletrônica), morreu em 2001.





O som do Popol Vuh é quase uma entrega espiritual; é calunioso rotulá-lo como Krautrock, gênero frequentemente atribuído a bandas alemãs como Can, Faust e Neu!. Para tirar a dúvida, é só escutar até o fim esse tema de Aguirre:





O caráter religioso da música de Fricke não conseguiu se esquivar, mais tarde, de outro rótulo --- new age. Nesse artigo de Robert Phoenix, "Popol Vuh: Not Of This World", o autor compara Fricke a Wagner e Strauss. Já nesse link do Rate Your Music é possível saber mais sobre a discografia do grupo e ver alguns vídeos interessantes.

morre aos 89 anos anselmo duarte, único brasileiro ganhador da palma de ouro em cannes

(1920-2009)

a vida continuou e ele também

A Juliana Damante é jornalista e pós-graduanda em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário (www.abjl.org.br), turma São Paulo 2009.
Antes de conquistar esses títulos, ela acumulava as funções de veterana e minha amiga de matar aulas na faculdade. Hoje ela se equilibra na ponte Campinas-São Paulo entre a redação de um perfil e outro e seu trabalho como produtora cultural.

Esse texto é a primeira produção dela como pós-graduanda. "O dono da rua" conta a história do Seu Repente, pobre até o osso e feliz até a medula. Ele toma conta de carros numa das regiões mais agitadas da cidade, o Castelo, que de nobre não tem nada. A observação da Damante é minuciosa e faz visualizar facilmente o encontro dela com o Seu Repente, sem puxa-saquismo (problema típico da narrativa dita literária) ou idealizações de personagem.

Parabéns, Damante!

atacaram o livro do ferréz


WILL EISNER E FERRÉZ JÁ FORAM APEDREJADOS. QUEM SERÁ O PRÓXIMO? TALVEZ OS CUS DE JUDAS, DO ANTÓNIO LOBO ANTUNES?


Atacaram o livro do Ferréz, dessa vez nas escolas de Minas Gerais. Trechos de Capão Pecado incluídos no livro didático Viver, aprender da editora Global foram rechaçados por conter palavras ditas chulas, inadequadas para alunos do ensino médio. O livro foi distribuído pelo governo no programa Projeto de Aceleração da Aprendizagem do Estado, que oferece aulas para crianças que reprovaram no mínimo duas vezes e/ou possuem muita dificuldade para aprender. A matéria do O Tempo, jornal baratinho de Belo Horizonte, só não teve a curiosidade de saber o que o autor dos fragmentos (Ferréz), os autores da coletânea didática e um aluno que tenha gostado do texto de Ferréz tinham a dizer sobre a escolha do governo em distribuidor 15 mil exemplares, que não serão recolhidos, de acordo com a Secretaria de Estado de Educação (SEE) de MG, mas mandou bem ao colocar trechos de entrevistas com as fontes consultadas no portal da publicação.

(Essa caça às bruxas lembra bastante o caso Will Eisner no Rio Grande do Sul, no qual três graphic novels foram indicadas pelo governo para serem usadas pelos alunos. Como a linguagem de Eisner, ao contrário do que muitos pensam, não é nem um pouco sutil e agradável, contendo muita violência e linguagem das ruas, os livros foram proibidos em sala de aula, em junho desse ano. O caso foi tratado com bastante riqueza por vários partidários do uso dos quadrinhos em sala de aula, como o Blog dos Quadrinhos.)

Só recentemente li o livro de Ferréz. As palavras chulas não passam da linguagem cotidiana dos moradores da periferia de São Paulo. Qualquer um que tenha 15 anos ou mais e não viva numa redoma de vidro não terá dificuldade na leitura, que traz gírias e palavrões com a função de ambientar o leitor no bairro de Capão Redondo, "terra esquecida por Deus". Ferréz narra, com competência, a fatalidade de nascer condenado a privações, um "amor" destrutivo e condições de vida abjetas sem cair na glorificação da pobreza e na guerra contra a "elite branca dominante".

Os fragmentos do livro incluídos no livro Viver, aprender constam no capítulo "Outras Histórias, Outros Mundos, Outras Vidas", levando o leitor a crer, indiretamente, que o mundo da pobreza, da periferia e do crime é um mundo que não faz parte do nosso cotidiano e por isso deve ser estudado nas escolas assim como são estudadas as longínquas (e difíceis de apreender) culturas do Afeganistão, do Senegal ou do Vietnã, visão essa bem mais preocupante que ler "tomar no cu" e "filho da puta" num livro escolar, expressões que todo maior de 15 anos que não viva numa redoma de vidro provavelmente já pronunciou com riso nos lábios.

portifolio

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em breve!



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em conjunto com a Central de Comunicação / Ateliê da Notícia
64 páginas. cor










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website sobre terapias complementares. basicamente CSS + Dreamweaver






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para escutar e para mais informações, clique aqui





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17 min. documentário sobre a moradia da Unicamp
produzido sob orientação da profa. Juliana Sangion (PUC-Campinas)


curriculum vitae

Nasci em Pouso Alegre (MG) e vivo em Campinas (SP), cidade na qual estudo jornalismo. Meu projeto de conclusão de curso é um ensaio fotográfico com histórias em quadrinhos sobre o município de Toritama (PE), capital da produção de jeans no país (em breve, amostras aqui no vai embora, nuvem).

Trabalho como diagramador, repórter e assessor de imprensa, por mais que goste mais da primeira função e gostaria mesmo era de saber desenhar. Nas horas vagas leio literatura japonesa, Thomas Bernhard e quadrinhos, escrevo roteiros por diversão, assisto Nanni Moretti e Ingmar Bergman, ouço Bach e Frank Zappa (às vezes simultaneamente) e desenho sites e revistas. Gosto muito de literatura, cinema, quadrinhos, bibliotecas, tipografia e tudo que envolva livros.

Clique aqui para ver meu Curriculum.

art spiegelman documentary

Saturday, January 29, 2005

Art Spiegelman documentary
Franco-German arts channel "Arte" broadcast a documentary on Art Spiegelman two weeks ago. Two short clips from it -one on part of his creative process and another on comics' place in the US' culture and its possible usefulness as a "gateway drug into literature" for children -are available here. Click on the "Extrait video" 1 and 2 links, "haut-debit" for high speed or "bas-debit" for low. Both clips are in English with French subtitles.

Thanks to FuFu.
Thanks to James Kozak from The Comics Observer.
And thanks to FuFu too (he's a great illustrator and comic book writer).

riceboy sleeps